Oxigênio suplementar pode ser prejudicial em pacientes infartados com saturação normal

MBE em Foco - Volume 3, Issue 12

Referência – ensaio AVOID (Circulation 2015 May 22 early online) (evidência de nível 2 [médio])

A terapia com oxigênio suplementar é comumente realizada como parte do tratamento inicial para todos os pacientes com infarto do miocárdio com elevação do seguimento ST (STEMI), mesmo quando a saturação de oxigênio é normal, embora os estudos que apoiam sua utilização sejam limitados. As diretrizes atuais recomendam a administração de oxigênio em pacientes com STEMI que apresentam hipóxia, mas as definições e recomendações exatas variam muito (Circulation. 2013 Jan 29;127(4):e362-425, Eur Heart J. 2012 Oct;33(20):2569-619). Uma revisão Cochrane anterior concluiu que a oxigenoterapia de rotina pode não reduzir a mortalidade em pacientes com infarto agudo do miocárdio presumido ou confirmado (Cochrane Database Syst Rev 2013 Aug 21;(8):CD007160), mas apenas 4 ensaios (todos com intervalos de confiança amplos) foram incluídos nesta análise. Um ensaio randomizado recente comparou a suplementação de oxigênio a 8 L/min com a ausência de suplementação em 441 adultos com saturação normal que tiveram dor no peito de

<12 horas e STEMI confirmado. Pacientes com suspeita de IAM no eletrocardiograma pré-hospitalar e saturação de oxigênio >94% (638) foram randomizados por paramédicos que iniciaram a terapêutica antes da internação. Os paramédicos também administraram aspirina 300 mg por via oral para todos os pacientes. Somente os pacientes cujo STEMI foi posteriormente confirmado por angiografia coronária na emergência foram incluídos na análise.

Os pacientes do grupo sem suplementação passaram a receber oxigênio se sua saturação fosse inferior a 94% antes ou na chegada ao cateterismo cardíaco, o que ocorreu em 7,7% dos pacientes randomizados para não receber suplementação. Todos os pacientes sem contraindicações foram convidados a realizar imagem cardíaca por ressonância magnética realçada por contraste (CMR) após 6 meses, e os pacientes não elegíveis para CMR foram avaliados por telefone ao acompanhamento de 6 meses. Embora a média dos picos nos níveis de troponina I não tenham diferido de maneira significativa entre os grupos, a suplementação de oxigênio foi associada com um aumento na média dos picos de creatinoquinase em comparação com a ausência de suplementação (1.948 unidades/L versus 1.543 unidades/L, p = 0,01). Nos 32% dos doentes que realizaram a avaliação por CMR a 6 meses, o oxigénio suplementar também foi associado com um aumento no tamanho mediano dos infartos (20,3g versus 13,1g, p = 0,04). Além disso, um número maior de pacientes que receberam oxigênio suplementar teve infartos recorrentes (5,5% versus 0,9%, p = 0,006) e arritmias cardíacas no hospital (40,4% versus 31,4%, p = 0,05) e eventos adversos cardiovasculares importantes a 6 meses (21,9% versus 15,4%, p = 0,08). Não houve diferenças significativas entre as mortalidades durante a internação ou aos 6 meses.

Uma das principais limitações dos estudos anteriores que avaliaram a suplementação é a randomização dos pacientes na chegada ao hospital, após o oxigênio já ter sido administrado como rotina. O método de randomização empregado por este ensaio considerou a intervenção pré-hospitalar, fornecendo envelopes opacos lacrados e numerados externamente para randomização nas ambulâncias. Neste estudo, o oxigénio foi fornecido por máscara facial a 8 L/minuto, mas o oxigênio é muitas vezes fornecido por cânula nasal a 2-4 L/minuto, tornando difícil a generalização dos seus resultados. Não se sabe se os efeitos adversos do oxigênio observados neste estudo também se aplicam à administração desse gás em doses menores. Por fim, o resultado primário deste trabalho foi a lesão miocárdica avaliada por picos nos níveis de troponina I e creatinoquinase cardíacas, e o ensaio foi desenhado para detectar diferenças entre esses desfechos intermediários. Embora a taxa de infartos do miocárdio recorrentes no hospital tenha sido significativamente maior no grupo que recebeu o oxigénio, a taxa de infartos do miocárdio recorrentes em 6 meses já não foi significativa (p = 0,07). Este ensaio, no entanto, foi de potência fraca para detectar diferenças em parâmetros clínicos, e avaliações adicionais são necessárias para determinar se o aumento observado na lesão do miocárdio se traduz em algum aumento nos desfechos clínicos. No geral, os resultados deste estudo põem em cheque o uso da oxigenoterapia como rotina, sugerindo que essa suplementação em pacientes com níveis de saturação normais pode aumentar a lesão miocárdica em pacientes com STEMI.

Para mais informações, veja o tópico Infarto do miocárdio com elevação do segmento ST na DynaMed.


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